Quinta-feira, Abril 23, 2009

As Vampiras atacam há 3 anos [Time Out de 2009-04-24]



Simone, Sara Montiel, lésbicas e sexo bizarro na peça mais ‘camp’ que por aí anda, diz Bruno Horta.

A arte de levar a sério o que é fútil e de considerar fútil o que é sério tem um nome: camp. A Encyclopedia of Homosexuality (1990) explica tudo: o camp tem sido utilizado por gays e não só, para pôr em causa os valores das classes médias através do artifício, da ironia e do humor. Dito isto, já podemos escrever sem recear mal-entendidos: As Vampiras Lésbicas de Sodoma, da Companhia Teatral do Chiado, é a peça de teatro mais camp que Lisboa tem para ver neste momento. E, se ao fim de três anos, que é o tempo que ela já leva em cena, ainda não a viu, faz muito mal.

Esses três anos assinalaram-se no início do mês e serviram de desculpa para a Time Out assistir à peça, ir aos camarins ver os actores desnudos e conversar com o encenador e director da companhia, Juvenal Garcês. Pelo que se pôde perceber, a peça continua a esgotar a sala do Teatro-Estúdio Mário Viegas e a bater aos pontos qualquer outra coisa que se arranje para fazer no domingo à noite. Os actores continuam a ir ao ginásio. E o encenador continua a gostar de desconversar com o tal artifício, ironia e humor. As Vampiras... já mudou várias vezes de elenco e de horário (agora está em cena aos domingos, às 21.00). Já passou pelo Porto, por Beja, Lagoa, Pombal e pela Mealhada. Mas de cada vez que é levada a cena aparece numa versão ligeiramente diferente.

A história pode resumir-se desta forma: duas vampiras, Simão Rubim e Rita Lello, que precisam do sangue de virgens formosas para sobreviver, conhecem-se em Sodoma há dois mil anos e acabam por se reencontrar hoje, durante os ensaios de uma peça de teatro pós-moderna. As vampiras são actrizes e por isso não só disputam as suas vítimas, como também o estrelato.

Nos entretantos, há sexo bizarro, músicas das divas gays Simone de Oliveira e Sara Montiel, referências ao caso Casa Pia e ao caso Freeport, a encenadores furiosos e a “bichinhas bipolares”. E há, sobretudo, muito improviso.

Juvenal Garcês explica que a duração da peça, de cerca de duas horas, depende sempre da forma como o público se comporta: quanto mais se rir, mais improviso e mais peça.

O texto original foi escrito pelo norte-americano Charles Busch (ou Mary Dale, na versão travesti) e estreou-se em 1984 num pequeno teatro de Nova Iorque. Esteve seis anos em cena, segundo se lê no site oficial do autor. A Companhia Teatral do Chiado, habituada a prolongar no tempo os seus espectáculos (a peça sobre Shakespeare já dura há 12 anos) pretende ter tanto ou mais êxito. “Quero que se torne uma peça popular e de culto”, diz Juvenal Garcês. “Na verdade, quero a peça dure mais do que o Sócrates”, resume.

O bilhete custa 20 euros e há descontos. “Mas se me pagarem o bilhete completo agradeço muito, porque o espectáculo é caro, a companhia não recebe subsídios do Estado e tenho aqui muita gente para dar de comer”, avisa o encenador. Se quiser saber mais coisas, vá ao blogue oficial: asvampiraslesbicasdesodoma.blogspot.com.

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posted by CTC at 23:57, |